A luta de uma mãe que, há cinco anos, tenta manter o filho longe das facções

Ser mãe, solteira, professora, universitária e moradora de um bairro da periferia de Fortaleza é um arranjo que demanda tempo. Para viver e ensinar a viver. Desafio para quem busca ser presente na criação dos filhos. Cenário de disputa constante com a sedução das facções criminosas.

“Sempre o acompanhei de perto. Até que, aos 12 anos, ele começou a ir à escola sozinho. Eu estudava na época. Pedia às vizinhas para o observarem. Não tinha onde deixá-lo. E o comportamento dele foi mudando. Teve o primeiro contato com a maconha, começou a gazear a escola, a faltar”, recorda a mãe de um jovem, sobre o início da peleja para não “entregar” o filho às organizações criminosas.

Por orientação do Conselho Tutelar, o menino foi levado a um Centro Urbano de Cultura, Arte, Ciência e Esporte (Cuca). Aos 14 anos, porém, o adolescente saiu de casa. Foi morar com amigos. “Lá, no Cuca, para além dos muros, existem esses meninos à margem da sociedade que, pela idade, se reconhecem uns nos outros”, diz.

Dias depois, veio a primeira internação, após tentativa de assalto. Foi o início da peregrinação por centros socioeducativos. O ambiente não ajudava. “Os centros eram escolas de crime”, afirma. As internações se intercalaram entre cinco unidades. Todas com o mesmo contexto de torturas e outras violações.

Em 2016, quando o jovem voltou às ruas, as facções haviam se estabelecido nos territórios. “Tive medo de trazê-lo para casa porque ele acabou indo para um bairro do grupo que se declara rival ao que dominou o lugar onde moramos”, conta. No desespero, enviou o filho para o Interior, depois para outro estado, até decidir que era hora de trazê-lo para casa.

“Fui conversar com os meninos que dominam o território. Falei com eles. Os meninos cresceram junto com meu filho. Falei que ele não era batizado, que não fazia parte de facção. Disse que morava sozinha, que eles cresceram dentro da minha casa. Apelei e consegui. Deixaram ele voltar”, conta.

O retorno representou o início de outra jornada: a busca por alternativa ao recrutamento. “Ele foi aliciado, chamado para os ‘corres’ (crimes). E não tem volta. Foi difícil. Ele passou por cadeias dominadas pelo outro grupo. E se você está dentro, seu grupo lhe protege. Se está fora, não. O problema dos simpatizantes é esse. Foi aí que ele me disse: ‘mãe, se não entrar, eu morro'”, relembrou.

Em meio ao dilema, a mãe tentou de tudo. “Andei de rua em rua com ele, com o currículo debaixo do braço, mas a gente não conseguiu”. Com a ociosidade, veio um roubo e o tornozelamento eletrônico. “Ficou ainda mais difícil arrumar emprego”. O jovem passou a fazer poesias nos ônibus. Por vergonha, segundo a mãe, desligou a pulseira, deixando de carregá-la.

Um mandado foi expedido. Preso, foi levado ao Centro de Triagem e Observação Criminológica (Ctoc). “Aquele presídio é um teste psiquiátrico. Um terror para as famílias e para quem está lá. Mas ainda bem que aquilo existe. É uma alternativa para não sentenciar as pessoas à morte”, resume, em uma referência à divisão de presos por facções de batismo ou afinidade, para evitar confrontos.

Preso provisório, aos 19 anos, o jovem foi encaminhado ao Centro de Execução Penal e Integração Social Vasco Damasceno Weyne (Cepis), antiga CPPL 5, que abrigava a massa carcerária (aqueles que se declaram não membros de facções). Após uma rebelião, contudo, o presídio “quebrou” e o jovem foi transferido para a Penitenciária de Pacatuba.

“Embora ele não seja de facção, agora está em uma unidade do grupo que domina no meu bairro. E por mais que eu peça, em meus pedidos de choro, quem sabe o que se passa lá dentro é ele. Hoje, meu receio é sobre as decisões que ele toma lá. Quando o visito, a minha pergunta de sempre, antes de abençoá-lo, como um código para saber se ele entrou ou não, é: ‘está tudo bem?’. E sempre que ele diz: ‘está’, fico aliviada. E a luta continua”, resumiu.

 

THIAGO PAIVA

O Povo On line

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