“Sem imunização, ainda não podemos aliviar”, diz Bruno

A pandemia vem mexendo com a cabeça de todo mundo, independente da área de atuação, e quem está vivenciando de perto seus efeitos é quem pode falar com mais propriedade sobre o assunto. O Jornal O Estado traz um papo esclarecedor com Bruno Cavalcante, médico assistente do Hospital São Carlos. Médico assistente do Hospital das Clínicas (HUWC), preceptor da Residência de Clínica Médica do Hospital Geral de Fortaleza (HGF) e professor de Clínica Médica da Universidade Christus (Unichristus).
Além disso, Bruno, que estudou também nos Estados Unidos, joga luz sobre Medicina Interna e Clínica Médica, abordando as diversas vantagens – como sociais e econômicas – com relação ao atendimento domiciliar.

O Estado. Para falar sobre a situação geral do mundo e que afeta diretamente a todos nós, como você enxerga a pandemia e suas consequências? Como você avalia o enfrentamento de nosso sistema de saúde?
Bruno Cavalcante. A pandemia nos pegou no final de 2019 e nos mostrou uma realidade muito dura: não estamos preparados para muitas coisas. E essa pandemia nos trouxe três grandes problemas, o primeiro foi de saúde, pois ela nos mostrou o quanto estamos frágeis em relação a quantidade de leitos de UTI, e isso é uma coisa global, não só nossa aqui no país. Nos mostrou também como um “simples” vírus, que sabemos agora não ser tão simples assim, pode causar danos tão graves.
O segundo problema foi financeiro, essa crise que se gerou com a quantidade de empregos, a queda no PIB e a quantidade de estabelecimentos que foram fechados. O terceiro é um problema de saúde mental. A quantidade de pessoas que entraram em depressão por passarem mais tempo em casa, entre quatro e cinco meses, sem poder sair. A quantidade de pessoas com ansiedade, preocupadas, com medo da doença ou com o óbito de seus familiares. A quantidade de pessoas que trabalham com saúde e entraram em Burnout [Síndrome do Esgotamento Profissional] por causa da pandemia.

OE. Podemos respirar aliviados com relação ao vírus ou ainda é preciso manter a atenção total?
BC. Eu acho que a gente não pode respirar aliviado, porque a pandemia ainda não acabou. Nós estamos vendo casos surgindo em diferentes locais, seja no Brasil ou no mundo. E nós ainda não dispomos de medicação que seja eficaz e comprovada contra os efeitos do coronavírus, nem temos ainda a vacina que nos dê total proteção contra essa doença. Então, infelizmente, para que a gente possa dizer que que temos condição de respirarmos aliviados tem de existir um tratamento que seja realmente eficaz ou uma vacinação que possa nos dar a condição de imunização à covid-19.

OE. Como é estar a frente dessa batalha árdua contra algo que ainda não se sabe ao certo de onde veio e como se faz para pará-lo?
BC. Estou fazendo 10 anos de formado na Medicina. Acabei a faculdade, na UFC, após seis anos de curso, em 2010. Fiz duas residências, que acabei em 2015, e de lá pra cá venho trabalhando na linha de frente em vários momentos diferentes, como os da dengue, chikungunya, zika vírus e tantas outras morbidades que a gente acompanha em ambiente hospitalar. Mas nada nunca me chamou tanta atenção como a covid-19.
Realmente foi um tempo que eu nunca imaginei viver, onde eu cheguei a trabalhar, em certos dias, em turnos de 14 horas, entre um hospital e outros, vendo muitos pacientes graves e com grande medo, de perder o paciente, de adquirir uma doença que ainda não conhecemos e, principalmente, medo de levar essa doença para dentro de casa, para minha esposa e minha filha. Então, realmente, foi um dos momentos mais difíceis da minha vida.

OE. Trazendo para a nossa realidade, a quantas anda a Medicina Interna no Ceará? A prática de estar mais próximo do paciente, indo em sua casa, é bem aceita? Fale um pouco mais sobre isso.
BC. A clínica médica no Ceará sempre foi muito forte, porque sempre tivemos grande nomes, grandes professores que lutavam pela bandeira da medicina interna e da clínica médica. E, com certeza, trabalhar com medicina interna, seja com pacientes internados em ambiente hospitalar, seja com pacientes em sistema de ‘home care’, seja no consultório, é algo muito gratificante, pois nós podemos ver o paciente como um todo. A gente não olha só um órgão ou só uma parte do corpo. A gente olha o paciente e monta um quebra cabeça, juntando as diversas áreas e especialidades da medicina.

OE. A Clínica Médica, um conceito que pode ser considerado antigo – mas revitalizado, é uma tendência para a medicina moderna? Teremos cada vez mais doutores indo até os pacientes e não o contrário?
BC. Creio que sim. A medicina interna e a clínica médica têm grande espaço para crescer nos próximos anos. Se eu montar uma orquestra e colocar os melhores os melhores músicos com os melhores instrumentos para tocar de forma aleatória, não vou conseguir fazer uma música adequada e, para isso, preciso de um maestro para reger e para montar uma sinfonia. Do mesmo modo, o paciente precisa de alguém que coordene o cuidado, que fortaleça a linha de cuidado, que junto os pontos e conecte os órgãos com diferentes doenças. E esse é o principal papel do clínico médico: organizar a saúde paciente; promover saúde; prevenir doenças; fazer o diagnóstico precoce e o tratamento do adulto e do idoso.

OE. Qual a importância do curso de treinamento para o combate à covid-19? Em que nível está os profissionais do Estado? Ainda há muito a evoluir? Tais práticas servirão também para a vida pós-pandemia?
BC. Com certeza, nós treinamos muitos médicos, sendo a maioria aqui na Capital, mas nós fomos também a Itapipoca, Sobral, Juazeiro do Norte, Iguatu, então nós tivemos a chance de correr diversas cidades e treinar médicos da Força Aérea, do Exército Brasileiro, do Hospital Geral de Fortaleza (HGF), do Hospital das Clínicas da Universidade Federal do Ceará (Walter Cantídio), da Prefeitura também nos hospitais de campanha, então com certeza a gente conseguiu fazer um intercâmbio muito legal, muito grande entre profissionais como médicos, enfermeiros, fisioterapeutas, levando conhecimento sobre a covid-19 e certamente evoluindo e aprendendo muito com o decorrer da pandemia. Não tenha dúvidas de que tudo isso irá trazer muitos benefícios na pós-pandemia, as pessoas estão bem mais habilitadas ao manejo de pacientes graves, ao importante uso da ventilação mecânica, à via aérea difícil, à reanimação cardiopulmonar, então são grandes benefícios que ficam para a vida além desse período.

OE. Você é preceptor da Residência de Clínica Médica do HGF e professor de Clínica Médica da Universidade Christus – Unichristus. Qual a sua avaliação sobre os futuros médicos e médicas que estão em formação?
BC. A medicina é uma arte baseada em muita ciência, e cada vez estamos vendo um número maior de médicos sendo formados e precisamos ter muito cuidado na formação desses jovens, para que eles tenham em mente a importância que é estar cuidando de uma vida e o quanto nós devemos nos dedicar a essa profissão e a esse ato de cuidar. E o que vejo muito é que os jovens médicos são muitos tecnológicos, e isso é bom.
Eles se preocupam muito com a parte de exames complementares, com terapêuticas mais modernas, mas nós não podemos, como professores, e como preceptores, esquecer do mais importante, que é a base. Ou seja, conhecer a história clínica, acolher o paciente, ouvir o paciente, examinar e tocar o paciente. E isso a gente não pode, de jeito nenhum, deixar perder, pois isso é a essência da medicina.

OE. No dia a dia do consultório, o senhor se depara com muitas situações complexas relacionadas a saúde. Dentre essas situações, como o senhor avalia a satisfação do paciente com o sistema de saúde, e relação médico paciente?
BC. Com certeza, temos vários tipos de medicinas e médicos ao redor do Brasil. Mas no dia a dia do consultório, o que a gente vemos é uma satisfação e uma alegria muito grande dos pacientes em poder serem acompanhados e acolhidos. Entendemos que nem todas as doenças são curáveis, e que nem toda doença tem um tratamento específico ou que vá resolver aquele problema dos pacientes. Mas eles têm certeza que sempre terão alguém com quem contar, um médico para aliviar o sofrimento. Então nossa preocupação como médico nem sempre é o ‘curar’, pois as vezes não é possível, mas é acolher, é envolver, assistir o paciente e aliviar o sofrimento, seja físico ou psicológico.

OE

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