Mortes no Ceará registram processo de desaceleração

Depois de dois meses com estatísticas muito atípicas e números históricos alcançados em maio, os serviços funerários da Grande Fortaleza começam a registrar uma diminuição no número de óbitos. No entanto, a atuação dessas empresas ainda não retornou à média que se calculava antes do surto de covid-19 em todo planeta.


O mês de abril já havia destoado de qualquer previsão feita por empresas do ramo, com aumento superior a 100% na demanda. Contudo, o mês seguinte superou os números, já inchados, alcançando um crescimento, em relação aos registros pré-pandemia, de 427%.


Todavia, desde o final do mês das mulheres, marcado pelo isolamento social rígido instituído pelo Governo do Estado, os empreendimentos funerários perceberam um arrefecimento na procura por seus serviços. Segundo Patrícia Meireles, diretora Grupo Memorial Fortaleza e presidente do Instituto Revoar, a tendência, até agora, é que junho se equipare ao que foi visto em abril.


“A gente tem sentido esse volume de óbitos diminuir, independente do hospital ou do cemitério. A demanda caiu consideravelmente”, explica. Porém, a gestora conta que o retorno à normalidade ainda é uma realidade futura. “Em relação a junho, vemos uma descida na escala. Não vamos voltar para a média normal, mas sim para o aumento de 100%”, detalha a diretora.

Receio
Patrícia afirma que vê a situação com otimismo e, analisando os dados que vem se concretizando nas últimas semanas, entende que a demanda deve continuar decrescendo. Todavia, em nome da prudência, o Grupo Memorial se mantém preparado para enfrentar até uma segunda onda de infecções.
“Estamos estimando o declínio, até pelos dados de contaminação e óbitos fornecidos. Mas ficamos sempre em ‘stand-by’ para um novo pico, uma recontaminação. O próprio Governo também trabalha nessa insegurança e vamos juntos na mesma precaução, para, se caso acontecer um novo pico, nos prepararmos com insumos e com equilíbrio emocional”, reitera a gestora.

Angústia
A diretora conta que o Grupo Memorial percebeu, com a grande alteração de rotina, que os colaboradores estavam precisando de um apoio diferenciado para enfrentar o trabalho durante a pandemia.
“Claro que trabalhamos com a morte no dia a dia, e já tínhamos a missão de acolher e atender essas famílias enlutadas. Mas o aumento, e o motivo dessas mortes, nessa quantidade, isso impactou diretamente na prestação de serviços. Tanto para a equipe de frente, quanto para os relacionamentos com os órgãos públicos e hospitais. Ficou desgastante”, relata.


Por isso, algumas atitudes, segundo Patrícia, foram tomadas para permitir que todos aqueles que trabalham no empreendimento possam desempenhar suas funções de maneira saudável. Uma das primeiras mudanças foi relacionada aos Equipamentos de Proteção Individual (EPIs). A empresa já fazia uso dos materiais adequados aos serviços prestados, mas fez questão de adotar insumos ainda melhores.


“Mudamos EPIs, porque eles não servem só para a proteção física em si, mas integram um contexto de segurança emocional e de isolamento muito elevado. E assim, nosso colaboradores se sentiram mais protegidos”, diz.

Semanas
Patrícia ressalta que a influência da pandemia no trabalho prestado pelo Grupo Memorial foi amplificado por conta do tempo alongado. A diretora relembra que o pico de 427% não aconteceu somente em um ou dois dias, mas que perdurou por um grande período. “Vivemos entre oito e dez semanas bem volumosas com um aumento diário. Então a equipe chegou num patamar onde aquilo começava a parecer normal, mas não era”. Assim que essa demanda interna se concretizou, afirma a gestora, foi iniciado um processo de atendimento e de auxílio, inclusive terapêutico, com os funcionários.
A preocupação da empresa foi focada nos detalhes que envolviam cada colaborador. O auxílio extra, decorrente da situação atípica, foi dado por meio da atenção com a realidade de cada um e, inclusive, com reforço financeiro. “A empresa sentiu necessidade de remunerar esses funcionários, de forma que eles se apoderassem mais desse trabalho”.

Projeto
Ainda pensando nos colaboradores da instituição, Patrícia conta que, por meio do Instituto Revoar, foi criado o “Projeto Tchau Ansiedade”. Com exercícios de respiração diários, métodos de controle dos pensamentos e outras ações, a iniciativa tentava dar alento aos funcionários que, durante a jornada, chegavam a ter picos de ansiedade.
Cada um dos trabalhadores também recebeu um bloco de notas com a motivação de, diariamente, anotar três acontecimentos positivos. “Isso vai mudando o olhar e o foco do pensamento. Além disso, estamos motivando que eles façam alguma coisa que saia da rotina, como um exercício ou ligar para alguém”, explica.

Problemas
A gestora, no entanto, lamenta que alguns problemas, já existentes há muito tempo, tenham se manifestado mais claramente nos últimos meses. Patrícia cita, por exemplo, a falta de integração do setor e falhas na realização dos processos, especialmente na região metropolitana.
Segundo a diretora, uma dos empecilhos notados é que o Serviço de Verificação de Óbito (SVO) não atende mais demandas que não sejam do município de Fortaleza. “Então se uma pessoa falece, de madrugada, na Caucaia, a família tem que ir atrás de uma certidão de óbito”, exemplifica.

Sofrimento
Essa busca apontada pela gestora é, todavia, dificultada por uma série de processos burocráticos e pela incapacidade de algumas unidades de saúde, que acabam por não auxiliar devidamente as famílias que buscam, apenas, destinar dignamente o corpo do ente querido. “A gente sente falta de um necrossistema integrado, para, por exemplo, facilitar a declaração de óbito [D.O.] para mortes residenciais. Não é papel da funerária fazer a remoção do falecido, mas a Polícia, o SVO e o hospital dizem que é. Mas onde que já se viu mexer num corpo sem D.O.?. E nessa confusão, quem paga o preço é a população, que sofre, e o empresariado, que tem de se virar para resolver isso”, lamenta Patrícia.

OE

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