Agentes penitenciários: temor por covid em presídios do CE

A superlotação no sistema penitenciário do Ceará, e as condições enfrentadas pelos presos que se amontoam em pequenas celas, são preocupações históricas, lembradas quando se olha para dentro das unidades estaduais. Onde cabem cinco, há trinta; onde deveria ser um local de triagem de presos até que eles fossem distribuídos entre os presídios, acaba sendo a morada durante meses. Nesse sentido, o sistema carcerário pode vir a concentrar uma das maiores taxas de infecção e mortalidade decorrentes da covid-19 no País, o que, infelizmente, ainda não está no centro do debate político atual.
Quando o novo coronavírus começou a se alastrar pelo Brasil, as autoridades alertaram para planos de contingência, a fim de enfrentar a disseminação dentro das prisões. Suspender as visitas foi uma das primeiras atitudes tomadas. No Ceará, também ficou decretada a interrupção das transferências entre unidades, exceto em casos excepcionais, assim como a suspensão das saídas temporárias. A busca por minimizar estes deslocamentos não foi suficiente. Em poucos dias, o primeiro caso foi confirmado.
Diante disso, o temor em contrair o vírus durante o trabalho ou até mesmo fora das unidades e transmitir aos presos é uma preocupação constante entre os agentes. Em uma pesquisa da Fundação Getúlio Vargas (FGV), 82,39% dos agentes alegaram ter medo do novo coronavírus. Os dados informam que a região Norte apresenta a maior proporção de profissionais com medo (93,3%), seguida da Nordeste (90%), Sul (84,6%), Centro-Oeste (83,3%) e por último Sudeste (76,7%). Vale mencionar também que mais da metade dos assistentes (54,8%) declarou conhecer algum companheiro que está infectado ou com suspeita.

Persistência
Na porta do presídio, antes mesmo de começar o expediente, uma técnica de enfermagem mede a temperatura corporal dos agentes que chegam para cumprir os plantões de 24 horas. O receio toma conta, é inevitável, principalmente quando se começa o serviço, as notícias correm rápidas demais, gerando pânico entre os funcionários.
Em uma conversa com a nossa equipe, uma agente, que não quis ter a identidade revelada, relatou que dois detentos foram a óbitos em menos de duas semanas, com tuberculose e pneumonia como causa mortis. “Noticiaram que o teste deles para covid-19 deu negativo, mas ouvimos dizer que familiares e advogados pediram reteste. O que está acontecendo é que muitos colegas de profissão estão adoecendo. Recentemente, dois agentes saíram da unidade com febre alta, de 39º graus. Percebo que estamos na linha de frente, mais não somos valorizados como deveriamos”, desabafa.
Segundo a profissional, há poucos meses o Sistema enfrentou um surto de catapora, ela afirma que nos últimos dias precisou conduzir detentos de sete unidades diferentes, com sintomas de doenças diversas. A mesma, levanta ainda a questão de que as condições dentro das unidades propiciam diversas outras doenças infectocontagiosas.

Resultados
De acordo com a presidente do Sindicato dos Agentes e Servidores Públicos do Sistema Penitenciário do Estado do Ceará (Sindasp), Joélia Silveira, muitos trabalhadores são do grupo de risco, entretanto estão em home office. “Não é só pela idade, temos funcionários que têm alguma doença crônica e, no momento atual, é melhor trabalhar em casa”, afirma. Conforme a presidente, os EPIs causaram uma melhora positiva e, atualmente, estão sendo repassados em grande proporção.
Para os Servidores Penitenciários, a maior preocupação, é a falta de reconhecimento, pois a equipe trabalha neste momento de frente com o inimigo, sem conseguir vê-lo. O temor de passar para os seus familiares, ou para algum ente querido, apavora o grupo. “Estamos acordando todos os dias e indo para as ruas normalmente, muitos agentes já foram contaminados, um deles infelizmente faleceu. O marido de uma agente foi a óbito. Além disso tudo, estamos com cortes nos salários, e férias não vamos ter. Pagamos para trabalhar, pois além do risco que estamos correndo, ficamos sem percepção, visto que estão havendo muitos cortes. Além do medo de contrair o vírus, adoecemos no lado psicológico”, declara Joelia.

OE

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